Secretário do novo século: agente internacional e bilíngue

Por Nayara Bermudez

A baixa proficiência em um segundo idioma sempre se apresentou como uma muralha que separa brasileiros das oportunidades de emprego mais atrativas. Para profissionais de Secretariado, sobretudo, a deficiência ficou ainda mais evidente quando no início da década de 90 o mercado passou a adotar a palavra “bilíngue” na nomenclatura do cargo, categorização que excluiu muitos profissionais que não falam uma segunda língua.

Em conversas com profissionais no meu programa de mentoria, busco quebrar o paradigma do bilinguismo e elucidar uma compreensão mais aprofundada sobre o porquê as organizações precisam de profissionais bilíngues. Sobre a conceituação do bilinguismo através dos tempos entendemos que definições mais clássicas1 caracterizam como bilíngue o indivíduo que nasce e cresce falando duas línguas diferentes concomitantemente. Outras definições apontam o bilinguismo como um processo gradativo2 em que o indivíduo adquire uma competência linguística após a outra – primeiro a fala, depois a escrita, por exemplo – não todas ao mesmo tempo. Estudos mais recentes associam o bilinguismo com a aquisição consecutiva3 de uma segunda língua, processo pelo qual se aprende a nova língua depois de adulto. Nota-se que essa evolução na definição do “ser bilíngue” tem muito a dizer sobre a transformação das sociedades e sua participação no mundo corporativo globalizado.

Para as organizações globais, o inglês (ou outros idiomas) é apenas o instrumento com o qual o profissional terá acesso ao ambiente internacionalizado da instituição. O real interesse por parte do empregador é que os colaboradores tenham interesse genuíno e sejam capazes de interagir em relações de trabalho nas diversas localidades onde a empresa opera. Por esse motivo é importante frisar que o domínio do inglês, isoladamente, não garante sucesso profissional nem mede a eficácia com que nos tornamos agentes internacionais. Uma reflexão válida a todos profissionais de Secretariado seria: se amanhã você acordasse e fosse fluente no idioma inglês e pudesse concorrer a qualquer vaga bilíngue no mercado, como utilizaria sua capacidade linguística em toda sua extensão? Creio que a resposta de muitos para esse questionamento seria “atendimento telefônico“, “reserva de hotéis e voos“, “marcação de reuniões“, “recepção de clientes estrangeiros“ e afins. Todavia, reitero que o papel do profissional de Secretariado na contemporaneidade já superou as atividades que exemplifiquei acima. Precisamos de profissionais com senso crítico de desenvolvimento global, retenção de custos, otimização recursos e de sistemas de trabalho, novas tecnologias, etc. Ademais, profissionais que entendam como trazer esses tópicos para uma mesa de discussão com indivíduos de outras nacionalidades e culturas. Possuímos profissionais capazes de interagir nesse nível?

Vejo muitos profissionais preocupados em preencher a lacuna do inglês e perguntam qual é o segredo para falar o idioma com o mínimo de fluência. Estão sedentos por conhecer o método mágico e eficaz que me tornou fluente em outras línguas. A resposta ainda choca e por vezes desmotiva: não há método cem por cento eficaz. Não há mágica, professor, ou curso específico para aprender o inglês de forma instantânea. Os variados recursos atualmente conhecimentos e globalmente difundidos – cursos de imersão, intensivos, online, contribuem amplamente para o aprendizado de línguas, porém nenhuma dessas estratégias, isoladas ou combinadas, determinam a rapidez e eficácia com que aprendemos outras línguas. A força para esse aprendizado reside dentro de cada pessoa e no propósito que as impulsiona a ser bilíngues.

Determinação e propósito são fatores fundamentais para a quebra do mito do bilinguismo no Secretariado. O Secretário do novo século deve inclinar-se a um propósito maior que é ser um agente internacional e aculturado, capacitado para desempenhar seu papel em diversas situações, das mais mais simples às mais complexas, movido pela consciência de que sua participação no mundo e nas organizações não se limita ao escopo do seu trabalho ou habilidade linguística, mas em seu interesse genuíno de ser parte de um mundo globalizado e mais abrangente.
Tornar-se um agente internacional e aculturado requer, por certo, algum conhecimento da língua inglesa. Todavia, não é necessário esperar por uma fluência impecável para começar a atuar no campo internacional. É possível acessar o ambiente externo aos poucos e, à medida que se avança, aprimorar os conhecimentos sobre outras sociedades e suas culturas, bem como expandir o domínio da escrita, da fala e do funcionamento da outra língua.

Limitar-se pela falta de fluência no inglês é aceitar que nós, como brasileiros, continuemos ocupando uma posição de desvantagem no cenário global, já que somos parte do único país lusófono da América Latina, cujo distanciamento geográfico das maiores potências do mundo nos sujeita a um desenvolvimento moroso no que se diz respeito ao conhecimento de outras culturas.

É tempo de buscarmos novos horizontes de conhecimento e tomar ações imediatas para um avanço real. O futuro da profissão de Secretariado, no que tange ao conhecimento de outras línguas, está diretamente relacionado à capacidade primeira de imergir-se em outros mundos e novas culturas. É um exercício diário de busca por informações, coleta de conhecimentos dos hábitos e costumes sociais e corporativos dos grandes centros comerciais. É desenvolver um real interesse por fazer parte do processo como um agente internacional.
Por meio deste processo, então, o bilinguismo passara a ser realidade para a maior parte do Secretariado. Veremos profissionais mais engajados, sensíveis às novas demandas do mercado, aptos para adquirir novas línguas como consequência da sua auto inserção na globalização.

1 Grosjean, F. Life with Two Languages. An Introduction to Bilingualism. Harvard University Press. Cambridge, Mass, 1982.
2 Macnamara, J. The Bilingual’s linguistic performance: a psychological overview. Journal of Social Issues 23: 59 – 77, 1966.
3 Wei, L. (ed.) The Bilingualism Reader. London and New York: Routledge, 2000

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